Lula e o tarot. Eleonora e os levantes.

Hoje me saiu a carta da temperança do Tarot. Minha ligação com essa carta tem a ver com imagem e não com seu significado. Me remete à performance em que Eleonora Fabião com duas jarras na mão, passa água de uma a outra até que toda a água evapore. Um trabalho sem fim, como somente a arte permite no mundo dos fins e da eficiência produtivista neoliberal. A carta aconselha: o caminho passa pelo meio. São palavras relacionadas a ela: cura, prudência, equanimidade, benevolência.  Listei nomes, passeei sobre as possibilidades que essa carta me abria, cheguei quase sem querer a Lula. Lula que em 2019 consegue se ocupar de “tentar gostar mais do ser humano”. Os dois pólos em que se dividem país não divergem apenas no que tem a ver com os entendimentos econômicos, mas sobretudo nas escolhas dos afetos que podem mover o mundo. Nada de novo, mas de vez em quando eu esqueço disso. Especialmente porque diante das injustiças sociais só um monge como Lula para não cultivar o ódio diariamente. A revolução não será armada como foram todas as outras, porque a própria ideia de levante precisa ser reinventada. Nisso, o anjo da carta da temperança aconselhou-me bem: se não acredita em mim, comece por imaginar-me.  Na época das eleições tivemos uma espécie de respiro, uma desejo coletivo, de, como Lula, acreditar mais no ser humano. Um desejo de não se deixar tomar pelos modos de vida individuais e individualizantes, como os propostos diariamente pelos pequenos aparelhos portáteis que simulam mundos a qualquer mão. As imagens das pessoas conversando nas ruas me lembrou outro trabalho de Eleonora, aquele em que ela posicionava duas cadeiras na rua e conversava sobre qualquer assunto. Conversar que parecia tão pouco há alguns anos, tornara-se pronto um gesto revolucionário. O único modo de se fazer política, segundo Lula. Lula explicou muito bem que função da reforma da previdência não é gerar 1 trilhão. UM TRILHÃO PARA QUE? Pergunta. Em seguida, lista uma série de medidas para gerar um trilhão sem tirar do velhinho. Não é que eles não saibam. Lula sabe muito bem disso. A reforma da previdência vai acontecer para promover a diferença e aprofundar a desigualdade de que sobrevive o sistema. Conciliar que parecia tão pouco há alguns anos, tornara-se pronto um gesto revolucionário. Entre tantas notícias, ora desesperadoras, ora patéticas, Lula mostrou que o pessimismo é um luxo que ele não pode se dar. Eu entendi que eu também não poderia. Mostra que ao invés de gastar tempo em desespero é preciso sonhar futuros não neoliberais. Um chamamento. Já que a arte é esse lugar, como nos mostrou Eleonora, de experimentar ação.


#11

A gravidade é como uma espécie de força que dá sentido e importância ao chão. Um elefante não flutua, um humano não flutua, um gato não flutua, uma formiga não flutua, uma poeira não flutua. Devido à força da gravidade o chão da terra abriga todos os acontecimentos que acontecem a todas as vidas. A gravidade que puxa o elefante, puxou o helicóptero que levava Boechat e o bandô do seu quarto. Não é possível precisar se os acontecimentos foram sincronizados. Não testemunhou nenhum dos dois, mas inteirou-se deles quase ao mesmo tempo. Estava tudo sujo de pó de madeira: lençóis e travesseiros. Seu bandô de madeira que media 1,80m, para esconder uma cortina de uma janela um pouco mais estreita, despencou, acertou primeiro a cama e depois parou no chão. Ao primeiro sinal de fragilidade da peça a gravidade fora assertiva: é para baixo que se cai. As hipóteses são múltiplas: possíveis cupins no passado, a idade da madeira, as excessivas variações do tempo de um verão que alterna tempestades com um sol de 45º, etc. A lei que da física que explica que o bandô haja caído no primeiro segundo em que os pregos deixaram de resistir, é a mesma que rege a órbita dos planetas, que atrai asteróides, meteoritos e outros corpos desavisados que passam perto da terra. A natureza não falha, as leis da física não descansam. Diante da madeira caída no chão, deu-se conta do milagre que lhe tirou de casa para um passeio no mar.


#10

Quando a cama começou a deixar escapar a areia granulosa, talvez já estivesse condenada. Tentou de tudo, obedecendo a ordem de toxicidade: óleo de casca de laranja, vinagre de álcool, sal, ácido bórico, bisnagas e querosene. O quarto pequeno e com janela para o pulmão do prédio acumulou, somou e multiplicou esses cheiros asquerosos. Nada deu jeito. O que nunca pode se afirmar ao certo no caso das pragas é se a ineficácia dos primeiros métodos deu tempo para que a praga se alastrasse ou se a madeira já estava condenada desde antes das primeiras tentativas de acabar com os cupins. O fato é que era um sábado à noite de calor e ela estava alí, diante de 19 caixas que perderam lugar nesse mesmo dia, quando a cama baú seguiu o rumo do lixão. Nenhuma das caixas estava identificada. Os tamanhos eram diversos. Começou abrindo uma caixa azul com uma delicada estampa de motivos chineses, se deparara com uma mecha de cabelo de uns 30 cm amarrados na ponta com uma liga de cabelo rosa neon. Lembrou-se da ocasião em que cortara o cabelo, há 7 anos, dos dias que seu cabelo ficou em cima da mesa esperando o dia de ser doado até que precisou da mesa e passou o cabelo pra estante, até que numa arrumação de fim de ano decidiu afastar a pressa, guardar o cabelo nessa caixa até que o dia em que fosse possível deixá-lo em algum ponto de coleta. Esse dia nunca chegou. Depois de tantos anos, achou que o cabelo já não serviria para mais nada, assim que se libertou da dívida e da viagem a Cidade Nova. Agora era a hora, no entanto, de decidir se jogar fora como se fosse lixo, ou se guardar cuidadosamente como o pedaço de si que era. Lembrou-se de repente do pavor que sentira dos santos que vira em Salvador, ainda criança, cujos cabelos, assim como as roupas e olhos, pareciam reais. Não entendia porque o santo de gesso, não podia ter roupa, cabelo e olhos de gesso. Era nessa mistura entre o que perece e o que não, que a fragilidade do cabelo, da roupa e dos olhos eram evidenciadas. O santo era perecível e ela também. Agora aquele cabelo alí distante tantos anos de sua cabeça parecia ter perdido seu aspecto vivo, talvez fosse a poeira, decidiu penteá-lo e penteou. Penteou, penteou, penteou até que decidiu lavar com um xampú extra-brilho, mesmo sem saber se o xampú atuava nos fios ou no couro cabeludo. Para não correr o risco de perder o rabo de cavalo que tinha alí, encheu uma bacia de água e fez todo o processo de lavagem com cuidado. Secou com o secador e percebeu seu cabelo um pouco mais vivo. Guardou o cabelo num pote de vidro e deixou o pote em cima da mesa. No dia seguinte, pegou a mecha assim que acordou para pentear. Cuidou do seu cabelo e depois fez carinho nos seus próprios braços, sentindo demoradamente aquele toque macio. Fez e refez. Comprou óleo extra-brilho, laquê e gel, de forma que tivesse mais possibilidades ao penteá-lo. Deu-lhe novas formas e novas texturas. Seu tempo em casa era curto, mas dava para pentear e cuidar daquela mecha. Com os cuidados o seu próprio-cabelo-do-passado passou a lhe interessar mais que o seu próprio-cabelo-do-presente. Foi quando decidiu raspar a cabeça deixando no topo da cabeça apenas a quantidade de cabelo suficiente para receber um aplique. Transformou seu cabelo-do-passado em cabelo-do-presente, seu cabelo-do-presente em cabelo-do-passado. O cabelo-do-passado não aguentou, cumpriu seu destino e logo se desfez em nada. Deixou a pia entupir para poder recuperar pelo menos alguns fios, mas quando começou o resgate percebeu que o cabelo-do-passado-que-virou-cabelo-do-presente era agora só uma gosma de ralo.


#9

Os cogumelos que descansaram no vinagre ficaram rosados. Não só os cogumelos, mas a água em que estavam de molho. Primeiro pensou em ignorar a constatação bizarra de que cogumelos brancos viraram rosa, então, cortou a cebola, fatiou e começou a cozinhar. Google. Buscas possíveis: Porque os cogumelos ficam rosa com vinagre? / Reações químicas + vinagre + cogumelo / Cogumelos rosa + mundo bizarro / Champignon fica rosa? / Cogumelo tóxico / Como descobrir se o cogumelo paris é tóxico? Cogumelo rosa mata? Enquanto não encontrou nenhum registro de cogumelos mudando de cor em contato com a acidez do vinagre, encontrou a história recente de um australiano chique vítima de uma confusão banal. 


#8

As baratas eram uma característica muito forte daquele lugar. Não por serem toscas, nojentas ou fedidas, nem por subirem pelos ralos no chão e nas pias, nem por terem pulado no braço da pessoa que dormia no quarto mais perto da saída de serviço. Eram importantes por moldarem os hábitos da casa: o lugar da mesa na casa, a vedação do filtro de água, a forma de armazenamento dos alimentos, quanto tempo era possível gastar comendo, a forma ótima eliminar a comida do prato, quantos minutos a louça poderia ficar sem lavar, quantas vezes ao dia era preciso tirar o lixo, etc. Aprendera há uns anos a agarrá-las pelas antenas. Nem bom nem ruim, mas uma característica bem específica para uma criança. Assim como era específico que fizesse parte do seu ritual de dormir espalhar objetos pelo chão do quarto, alguns com função de espantalho, outros de mero obstáculo. Eram variados: cercados, carros, bonecas, feias e bonitas, morcegos, vaquinhas, sabonetes, livros, dominó. Às vezes demorava a dormir esperando que alguma barata chegasse e colocasse a prova a eficiência de suas arapucas. Outras vezes, demorava a dormir com medo que seu exército não desse conta da missão que lhe fora destinada. Acordar com uma barata no seu próprio braço seria mais do que nojento, mas pior ainda seria que alguma grudasse no gloss de morango que usava todas as noites para hidratar os lábios. Sempre foi uma dúvida a possível predileção de baratas por sabores fortes e artificiais. Ao mesmo tempo, esse nojo se misturava com uma curiosidade, planejava, para quando a primeira barata caísse na caixinha transparente com desenhos de rosa que finalizava o labirinto, dar-lhe nome: odete, waldete ou cleide. Nunca lhe saiam nomes masculinos para as baratas, não entendia bem porque. Ensaiou conversas em que vestiria as antenas de tevê e perguntaria sobre desastres nucleares, esgotos, dinossauros e sobre a capacidade asquerosa de comer carne em putrefação. Mas as baratas não chegaram. O aperfeiçoamento de todo os sistema de captura levou algum tempo, tempo em que as infinitas regras de assepsia começaram a surtir efeito. Quanto mais condições tinha de captura, menos exemplares tinha disponíveis transitando pelo lugar. Passou a levantar no meio da noite para abrir a porta do banheiro, depois os ralos. Não foi suficiente. Começou a rezar e implorar a Deus sorte de ter uma baratinha mínima que fosse capturada. Mas as baratas não chegavam. Ainda que advertisse sua mãe sobre quão vigilante estava com relação aos insetos, e sobre um possível desinteresse deles por aquela casa, as regras permaneciam. Quanto menos as baratas chegavam mais as regras se estabeleciam: cada vez era possível esperar menos tempo entre a última garfada e a hora de lavar o prato. As baratas não chegavam, não voltavam, não frequentavam mais aquele lugar. Achava uma injustiça sem fim que quanto mais condições de captura e diálogo tinha, mais impossível fosse realizá-las. Era talvez hora de pedir ajuda aos vizinhos, ou deixar isso pra lá, ou adaptar o sistema para formigas. Mas antes de desistir, decidiu acrescentar um último passo ao seu ritual de abrir portas e ralos, buscar um pouco de comida para deixar alí, dentro da caixinha transparente com desenhos de rosas, bem pertinho de si. 


#7

A dor de garganta é o que lhe persegue. É a segunda e o ano está apenas começando. Parece que esteve horas falando, mas não esteve. O ar-condicionado pode estar injetando, além de ar frio dentro do quarto, partículas infectadas de qualquer coisa que se instalam meio da garganta e não fazem bom serviço. Não fica rouca há 2 anos e 3 meses. Desde que entendera que repetir infinitas vezes um refrão não derruba nenhum presidente. A propósito, nesse tempo o presidente piorou. A garganta lhe dói não como um aviso para não falar, mas como um aviso para não respirar pelo nariz entupido. Lavou-o algumas vezes com a chaleirinha que manda água e sal para todos os ductos que vê pela frente. A água de hoje estava levemente esverdeada – a panela em que fervera a água continha resquícios de brócolis – apenas o suficiente para colorir a água e fazê-la descobrir a conexão entre nariz e ouvido, há muito descoberta. 


#6

Encontrou sobre a mesa branca um cabelo branco. Se não mexesse, quanto tempo ficaria alí? Daquela mesa para onde iria? Se jogasse no lixo ou no esgoto, quanto mais duraria sobre a terra? Lembrou-se do bigode de Dalí, encontrado intácto 30 anos depois da morte do artista, com as pontas perfeitamente enroladas. Já havia visto alguns cabelos brancos na sua cabeça, mas nunca havia topado com um deles assim, pelo meio do caminho. Isso significava provavelmente que já teria tantos que começavam a cair em quantidade igual aos pretos, cor original do seu cabelo. Disfarçar os cabelos brancos é fácil, uma tintura bem feita combinada com hidratações regulares é suficientes, o problema é disfarçar todo o resto, as rugas e a flacidez mais mínima da pele que só ela mesma podia perceber. Descobriu que os cabelos agora ficam brancos em média 5 anos antes, há uma década os primeiros fios apareciam aos 30 ou 40. Os motivos prováveis são estresse e estilo de vida: nada de novo sob o sol. Encontrou uma única pesquisa em curso com reais chances de êxito, uns cientistas de uma marca de cosméticos que querem criar um suplemento alimentar para que os melanócitos da cabeça não parem de trabalhar com a idade, assim como não param os da pele. Achou engraçado que só existissem dados sobre o embranquecimento das cabeças de mulheres, depois ficou puta. Pensou se esbarrar com esse discreto pedaço de si seria uma espécie de alerta sobre a vida que leva, ou uma oportunidade de se somar àquelas que desfilam maus costumes. 


#5

Da primeira vez que quebrara um dente estava no cinema assistindo um filme e comendo pipoca. Na verdade, quando o dente partiu, o filme nem tinha começado ainda. Os trailes de filmes infantis testemunharam sua angústia de descobrir uma pedra solta rolando em sua própria boca. Pegou a pedra, tentou olhar contra a luz, mas não entendeu nada. O conserto do dente custariam-lhe precisos R$1380,00, que pagos em uma única parcela se tornavam R$1200,00. Era quase todo o dinheiro que recebia por mês para pesquisar alguma coisa do futuro, como nano equipamentos para corpos mutantes ou os efeitos de uma alimentação sintética em corpos no espaço. A solução da dentista era um bloco, também conhecido como restauração indireta: o dentista cria o molde, manda para um laboratório de próteses e cimenta no local. A ideia de cimentar uma nova parte dentro de si deu-lhe um pouco de graça, que logo passou. Descobriu que o bloco seria confeccionado de porcelana. Imaginar um pedaço de porcelana nos seus restos mortais foi um pensamento mórbido. Uma inarqueologia de si. Outro dia encontraram lápis-lazúli no tártaro dos dentes de uma senhora da idade média. Esses dentes azulados mudaram toda a história da escrita: a feitura dos manuscritos medievais deixara de ser exclusividade dos monges. O tártaro acolhe pedaços mínimos de insetos, pólen de flores, lã, proteínas e, agora, pigmentos de pedras preciosas. O tártaro pode dar início a uma revolução feminista. Incrustar uma porcelana em sua arcada dentária inventaria para ela uma vida que não teve. Ao mesmo tempo pensou que só seria possível falsear sua própria existência se adivinhasse os arqueólogos do futuro. Na dúvida, acolheu porcelana e tártaro, como quem escreve uma autobiografia ficcional.


#4

A imagem do pulmão que lhe acompanhava era própria. Nem uma miniatura de biscuit, nem uma imagem de enciclopédia, nem nada demais, apenas uma radiografia. Algumas vezes, olha apressadamente essa imagem, que já olhara tantas outras vezes, sente um certo medo de encontrar qualquer coisa que não deveria estar ali e desvia o olhar. Outro dia soube de uma mulher com 20 lentes de contato dentro de um olho e de um chinês com uma colher posicionada no esôfago. A radiografia do chinês parecia à sua, mas entre os pulmões estava uma colher que só pode ser retirada depois de 3h de cirurgia e um exercício de pescaria com uma máquina de laparoscopia. Outras vezes, posiciona a radiografia contra a janela e fica olhando demoradamente na esperança de que ao ver seus adentros, entenda qualquer coisa a mais sobre si. Conhece-te a ti mesmo, pode talvez abranger a fisiologia. De alguma maneira lhe encanta esse gosto da civilização de ver-se por dentro. No último ano viu-se muito: pés, pulmão, pulso direito, abdomem, mama e útero. Decidiu conhecer seus brânquios, pleura, lobos e alvéolos por uma tosse que insistia em não passar. Quis ter certeza que não havia nada demais alí, já que é de conhecimento popular os múltiplos focos de tuberculose na cidade em que vive. Recebera a recomendação de um doutor que além de acreditar no que as imagens mostram, acredita também no que elas podem prever. Nesses momentos, a imagem do pulmão se assemelha aos fígados de ovelha usados para vaticínios na antiguidade, com a diferença de que seu pulmão só é capaz de vaticinar seu próprio destino. Nada é mais assustador que isso.


#3

Era quatro da manhã quando começou a escutar pingos intensos sobre sua cabeça. Estava dormindo e acordou com o barulho. Foi ao banheiro e teve certeza que a água pingava alí em cima, voltou ao quarto, e teve a mesma sensação. Uma ou duas goteiras. Misteriosamente, não chovia. Uma infiltração. Acendeu as luzes e procurou qualquer vestígio de água pingando do teto, nada. Ainda assim, decidiu cobrir cuidadosamente o computador, o celular, algumas fotografias e duas ou tres coisas a mais que lhe importavam e não podiam molhar. Deitou outra vez, e, imediatamente, se lembrou de alguns livros que estavam no chão e certamente apareceriam boiando no dia seguinte quando as goteiras resolvessem mostrar serviço, permitir a água entrar. Levantou outra vez e subiu os livros para uma prateleira. Lembrou-se da gota chinesa, o método de tortura em que o prisioneiro imobilizado recebe gotas de água na cabeça a cada 5 segundos. Pensou se o ruido constante seria uma provocação do vizinho, mas não sabia se havia vizinho. Pensou mesmo em bater no teto com um cabo de vassoura, mas decidiu apenas juntar objetos flutuantes capazes de ajudar em sua sobrevivência, caso precisasse construir uma arca para sair dali. Pegou também dois baldes e posicionou no quarto e no banheiro de acordo com o som. Dormiu tranquila. Acordou no dia seguinte sem uma única gota de água no chão. Não estava nem um pouco louca, as estalactites crescem frações de milímetro por ano. Muito mais lentas que suas unhas, por exemplo. Sabendo que eram úteis para estudar variações climáticas de 100 mil anos atrás, sentiu-se feliz trabalhando pro futuro. 


#2

No fim das contas ninguém sabe exatamente como escovar os dentes. Não há evidência que comprove que técnicas elaboradas sejam mais eficazes que uma escovada simples. A pesquisa da University College of London teria economizado boas horas de discussão com sua mãe, se houvesse sido publicada ainda em sua infância. Não deu essa sorte e teve que se submeter a um policiamento ostencivo, que vigiava não apenas frequencia da higiene bucal, mas sobretudo o modo de fazê-lo. Não só ao policiamento, mas também aos longos discursos enaltecendo o próprio policiamento. Hoje se deparou com a escova elétrica, escutou, como quem se interessa, um colega de trabalho falar um par de horas sobre o plano de adquirir uma. Uma bem barata custa R$38, uma bem cara R$500. Nunca entendeu bem se a escova elétrica servia para economizar trabalho, ou para massagear as gengivas. Resolveu não perguntar. Numa rápida busca sobre as razões para se ter uma escova elétrica encontrou um modelo que traz um temporizador capaz de indicar o tempo exato para escovar cada um dos quatro quadrantes da boca. Apesar de toda imprecisão na ciência do asseio bucal, as instruções para uma escovação perfeita não param de se multiplicar. Desistiu dessa investigação e retornou à primeira aba, num pequeno texto que se seguia ao da fragilidade das escovações, tentava responder se o fluor seria ou não usado para controlar mentes. De repente, toda a história do temporizador fez bastante sentido. 


#1

Começou o dia cedo estraçalhando cuidadosamente com unhas bem afiadas e verdes uma dessas coisas brancas do mar. Muito provavelmente uma alga, de menos de 7 cm que fora enxotada pela maré alta. Na maré alta supostamente cabem mais coisas no mar, muita coisa é acolhida, mas também estão aquelas que sobram sem qualquer motivo. Às vezes, parece que na maré alta cabem mais coisas e menos coisas dentro do mar. A alga branca tem sua própria resistência, mas o tempo todo a está prestes a quebrar. Ficou guardada até agora no bolsinho mínimo de um caderninho de viagens cuja capa convida a viver com ilusão, ou esperança, a depender do ânimo de quem o traduz. Dentro desse mesmo bolsinho estava um pedaço de dente igualmente branco. Um moço bem queimado pelo sol que estava sentado a sua direita, ou talvez a sua esquerda, numa formação triangular na ponta da lancha, abriu uma latinha de pastilha walda no preciso momento em que a lancha entrara em mar aberto. A lancha era pequena e tinha uma quantidade de pessoas que acreditavam que aquela lancha fosse capaz de navegar em mar aberto. Ou talvez não. O sol, os vôos, os risos do verão. Olhava a alga da blusa cinza do menino queimado, enquanto, abria discretamente a boca, para catar uma pedra branca que guardaria no último bolso da cadernetinha. O sol queimava enquanto a embarcação balançava. A pedra que guardara não media mais que 5 milimetros, absolutamente disforme como um meteorito, no entanto, menos polida, menos preta, menos metálica. Uma espécie de lembrança de si, para juntar à lembrança do mar. O dente fora arrancado delicadamente pela pastilha num momento de distração, sem qualquer espasmo, sem dor. Não valia nada, se a fada do dente existisse pagaria menos de 1 real pelo seu auto-souvenir. A pedra branca era um lembrete que sua boca fora distinta. Jogou em mar aberto, transformando seu auto-souvenir em uma oferenda à Bahia. A auto-oferenda seguiu seu curso, ficando alí depositada ao lado dos corais pelos próximos milhares de anos. Ou talvez tenha matado um peixe minusculo, no caminho até o coral em que descansaria futuro à diante. Lembrou-se do tempo do dente, enquanto tirava cochonilhas de um cacto, pensando se seria uma atividade semelhante a palitar dentes de um dinossauro.

04.11.2017

4 de novembro de 2017. Custou-me muito escrever a data, porque eu não conseguia lembrar se era setembro ou outubro. Custou-me localizar o mes porque já é novembro e eu procurava o seu nome em lugar equivocado. É sexta-feira a noite e eu estou em casa. Inscrevo-me em um edital ao que aplico todos os anos. Por isso, fui em tantos lugares enquanto escrevia. Não demorei mais de um segundo na inscrição. Não tenho fé nenhuma. Quando eu estava de pé na cozinha, parecia muito interessante tudo isso que eu tinha para te falar e que agora se desfez em nada. Fiz uma tapioca para a janta. Mudei a receita, mas a essência, o “ser tapioca” permanece lá. A base da minha alimentação diária, que só de pensar me dá ganas de vomitar. A tapioca e o feijão e arroz daqui são uma metáfora perfeita para os dias. Tudo se repete. E isso que se repete não era bom nem se não se repetisse. Uma metáfora dura à que não consigo reagir. Não tenho vontade de cozinhar. Tudo que eu toco fica um lixo. Tal qual minha tapioca com tahine e tomate, que da primeira vez que fiz pareceu-me deliciosa. Sinto sono e meus olhos já quase fecham, também pudera, um dia inteiro escrevendo sentada na mesma cadeira beliscando a mesma comida ruim. Às vezes eu penso que se eu pudesse fazer uma comida melhor meus dias seriam outros.

Una brujería sencilla por donde empezar el cambio.

Desanimo antes mesmo de pensar no trabalho que daria começar. Quando eu cheguei aqui minha comida não era ruim assim, agora é. Agora já não a suporto mais. Não me suporto mais. É sexta-feira a noite e sinto sono. Se eu tivesse ai estaria seguramente te chamando para que pudéssemos escrever noite a dentro, noite até os olhos permitirem. Aprendo todos os dias com meus alunos. Mas o meu celular me leva de volta para o lugar de onde não sai. Preciso seguir em frente, mas de vez em quando me pego pensando sobre onde você está. Em frente é um caminho tão pouco claro. Busco um ritmo capaz de abarcar a cidade perdida que não consigo editar. Paro, organizo a semana e sinto uma enorme falta de ar. O tempo não dá mais pra perder. Antigamente dava. Essa fissura parece incurável. Paro aqui e decido não te enviar resposta.

Agora já é de manhã. Num intento de reagir faço fruta pão para tomar com café. Antes de chegar ao final da primeira página o café já havia esfriado. Tomo café, escrevo, faço compressa no meu pé esquerdo, tentando ignorar que ele já quase completa aniversário de torção. Até aqui a compressa não funcionou. Não entendo porque funcionaria agora. Mesmo assim, insisto. Se não curar, pelo menos melhora. Para onde olho, encontro metáforas do que não consigo resolver. Mas a coisa em si, eu nunca soube identificar. Pensei que no ato de mudar-me encontraria em uma caixa, embaixo da colcha ou fedendo dentro da geladeira. No se puede. Ya no se puede. No se puede más. 

Gestos Inúteis

para Funes

Passo a outra mão no cabelo. Faço formas estranhas com a boca, como quem pensa. Como quem não pensa. Cruzo as pernas em cima do banco. As pernas adormecem. Desço a perna esquerda. Tomo um gole de café frio. Escrevo enquanto coço a perna direita e penso que talvez eu devesse passar repelente antes de dormir. Apoio o pé esquerdo nas madeiras que conectam as pernas do banco em que estou sentada. O banco tem no tampo um azulejo de um galo portugues. Junto as pernas, ambos os pés estão apoiados na madeirinha. Coço o queixo. Solto o lápis pra passar as duas mãos no cabelo. Eu podia fazer um haicai sobre a repetição dos dias. Olho minha mão esquerda. Tenho uma cicatriz discreta no anelar. Tem meses que não faço a unha. Um mosquito minúsculo caminha na orquídea amarela de R$5,00. Será como subir uma ladeira? A disney sempre pensou sobre isso. Eu nunca. Encontrei tudo pensado. Coço o olho esquerdo. De novo. Agora usando as unhas. Funes se veria a si mesmo assim? Tiro a franja de cima do meu olho esquerdo. Coço o nariz com a mão do lápis. Coço o joelho esquerdo. Já me perdi na posição das pernas. Troquei. Preciso arrumar meu óculos. Bocejo. Olho pra fora da janela. Perdi o mosquito minúsculo de vista. Coço a nuca. Bocejo. Não sei exatamente o que eu estou fazendo. O que será que eu penso antes de me levantar? Tomo um gole de café frio. Não gelado, na temperatura ambiente. Esse texto é um lixo. Até quando eu poderia seguir com isso? Coço o nariz. Aperto o lápis com a mão direita pra sair mais ponta. Eu acho tão bonito ser canhoto. Eu queria passar batom com a mão esquerda. A medida pode não ser de tempo mas de espaço. Bocejo. Coço o olho direito com a mão esquerda. Coço as cicatrizes do meu ombro direito. Olho pra porta. Bocejo. Não tem fim. Já sei. Tiro o cabelo do rosto com a mão que seguro o lápis. Bocejo por mil anos. Eu sempre penso que vou acordar à medida que o tempo passa. Nem sempre acontece. Um mosquito minúsculo pousou no meu braço. Me deu pose de montanha russa, como a centopéia. Será que pros bichos que voam a montanha russa tem a mesma graça que pra mim? Porque será que eles andam no meu braço? Se eu voasse não gastaria quase tempo andando. Teria mais asas que pernas. Como uma galinha. Talvez esse mini mosquito tenha, mas eu não consigo ver. A orquídea amarela tem pontinhos cor de vinho.

 

escrito em novembro de 2015

06.04.2017 ou 3 dias pro fim do ano passado

Hoje é dia 06 de abril, faltam exatos 3 dias para o fim de 2016! Estou numa contagem firme e regressiva.

São exatas 9h49 da manhã, desde que acordei já tomei banho, terminei a mala e perdi um vôo por incapacidade de decodificar letras corretamente. Diante do código GIG, li, repetidas vezes: Santos Dummont. Lembrei que minha tia, quando estava aprendendo a ler, juntava S-A-P-O em "CURURU". Assim eu fiz. Já chorei, depois chorei chorei, chorei e consegui resolver tudo mediante a simples aquisição de mais uma dívida: 6 suaves prestações de R$100,00. Nunca tive tantas dívidas. Às vezes eu imaginava que ser adulto fosse assim, sentimentos estranhos misturados a números vermelhos. Outras vezes eu imaginava que fosse mais fácil. Alguma coisa entre aqui e ali está sendo.

Ontem a noite, meu pai me ligou porque achava que eu tinha perdido o vôo, tranquilizei-lhe, meu vôo seria apenas hoje. Não consigo não achar que nas minhas palavras sempre truncadas do whats app, meu pai adivinhou o futuro de 12hs depois. Leu palavra como cosmos-imagem. Ante ontem, escrevi uma coisa que parece a chave para outra que ainda não sei: buraco de minhoca: meu eu de 7 anos atrás, meu eu de depois de depois de depois de amanhã. Adivinhação que permanece como adivinhação.

01.01.2017

Estou parada sobre o primeiro dia de 2017, que em tudo, nos mais mínimos detalhes, se assemelha ao último dia de 2016. 

De ontem pra hoje, vivi o que fiquei na dúvida se era minha primeira insônia de 2017, ou minha última de 2016. Se Patti estiver certa, com todas as suas superstições sobre o que fazemos no primeiro dia do ano e sobre como isso se repete o ano inteiro, eu terei muita insônia, e passarei o ano com Cortázar. Prefiro pensar, nesse caso, que haja sido uma despedida do ano mais insone da minha vida. Olhei o calendário lunar, a lua nova não explicava a desobediência dos meus olhos ao cansaço do meu corpo. Mas gostei de pensar que ela traz, assim como a mudança de ano, a ideia de que tudo ainda está para acontecer. 

Depois de um cochilo eu fui pro mar. Minha mãe nem lembrava mais a última vez que ela tinha entrado na água, fizemos todos um esforço e nada! Eu lembro que ela usava um maiô, não, um biquini preto, eu acho. Não sei que idade eu tinha, mas certamente eu era criança. Entramos todos na água. Minha mãe e meu pai queriam rezar, como eu não tinha um rito meu, aceitei o desejo deles de emprestarem suas rezas a mim. 

A primeira cena de hoje, a primeira que eu realmente vi, foram dois meninos descendo o morro do careca rolando. Achei lindo. Antigamente, meu avô dizia que a primeira pessoa que se via em um ano, trazia consigo notícias de sorte ou de azar. Fiquei pensando se eu poderia relacionar as duas coisas. Se sim, acho que esses meninos, nem me adivinharam sorte, nem azar, mas bem muita poesia.

Peça Triste

Caminhe sobre a fronteira de uma cidade que não existe mais.

Inverno [sem chuvas], 2016.