#apllque

#10

Quando a cama começou a deixar escapar a areia granulosa, talvez já estivesse condenada. Tentou de tudo, obedecendo a ordem de toxicidade: óleo de casca de laranja, vinagre de álcool, sal, ácido bórico, bisnagas e querosene. O quarto pequeno e com janela para o pulmão do prédio acumulou, somou e multiplicou esses cheiros asquerosos. Nada deu jeito. O que nunca pode se afirmar ao certo no caso das pragas é se a ineficácia dos primeiros métodos deu tempo para que a praga se alastrasse ou se a madeira já estava condenada desde antes das primeiras tentativas de acabar com os cupins. O fato é que era um sábado à noite de calor e ela estava alí, diante de 19 caixas que perderam lugar nesse mesmo dia, quando a cama baú seguiu o rumo do lixão. Nenhuma das caixas estava identificada. Os tamanhos eram diversos. Começou abrindo uma caixa azul com uma delicada estampa de motivos chineses, se deparara com uma mecha de cabelo de uns 30 cm amarrados na ponta com uma liga de cabelo rosa neon. Lembrou-se da ocasião em que cortara o cabelo, há 7 anos, dos dias que seu cabelo ficou em cima da mesa esperando o dia de ser doado até que precisou da mesa e passou o cabelo pra estante, até que numa arrumação de fim de ano decidiu afastar a pressa, guardar o cabelo nessa caixa até que o dia em que fosse possível deixá-lo em algum ponto de coleta. Esse dia nunca chegou. Depois de tantos anos, achou que o cabelo já não serviria para mais nada, assim que se libertou da dívida e da viagem a Cidade Nova. Agora era a hora, no entanto, de decidir se jogar fora como se fosse lixo, ou se guardar cuidadosamente como o pedaço de si que era. Lembrou-se de repente do pavor que sentira dos santos que vira em Salvador, ainda criança, cujos cabelos, assim como as roupas e olhos, pareciam reais. Não entendia porque o santo de gesso, não podia ter roupa, cabelo e olhos de gesso. Era nessa mistura entre o que perece e o que não, que a fragilidade do cabelo, da roupa e dos olhos eram evidenciadas. O santo era perecível e ela também. Agora aquele cabelo alí distante tantos anos de sua cabeça parecia ter perdido seu aspecto vivo, talvez fosse a poeira, decidiu penteá-lo e penteou. Penteou, penteou, penteou até que decidiu lavar com um xampú extra-brilho, mesmo sem saber se o xampú atuava nos fios ou no couro cabeludo. Para não correr o risco de perder o rabo de cavalo que tinha alí, encheu uma bacia de água e fez todo o processo de lavagem com cuidado. Secou com o secador e percebeu seu cabelo um pouco mais vivo. Guardou o cabelo num pote de vidro e deixou o pote em cima da mesa. No dia seguinte, pegou a mecha assim que acordou para pentear. Cuidou do seu cabelo e depois fez carinho nos seus próprios braços, sentindo demoradamente aquele toque macio. Fez e refez. Comprou óleo extra-brilho, laquê e gel, de forma que tivesse mais possibilidades ao penteá-lo. Deu-lhe novas formas e novas texturas. Seu tempo em casa era curto, mas dava para pentear e cuidar daquela mecha. Com os cuidados o seu próprio-cabelo-do-passado passou a lhe interessar mais que o seu próprio-cabelo-do-presente. Foi quando decidiu raspar a cabeça deixando no topo da cabeça apenas a quantidade de cabelo suficiente para receber um aplique. Transformou seu cabelo-do-passado em cabelo-do-presente, seu cabelo-do-presente em cabelo-do-passado. O cabelo-do-passado não aguentou, cumpriu seu destino e logo se desfez em nada. Deixou a pia entupir para poder recuperar pelo menos alguns fios, mas quando começou o resgate percebeu que o cabelo-do-passado-que-virou-cabelo-do-presente era agora só uma gosma de ralo.