Lonjuras, a medida vaga

Este poderia ser um texto que almejaria apontar ou abalizar as extensões dos caminhos que as artistas percorreram com os trabalhos apresentados nesta mostra, intitulada Lonjuras. No entanto, é preciso admitir, desde já, que é justamente sobre a impossibilidade de tal exercício de delimitação que estes trabalhos tratam de evocar. Tornando necessário, para a tarefa destas letras, atentar para que o percurso de leitura das imagens não se delimite, e sim, pelo contrário, entre em ressonância com o indefinido movimento de exploração das distâncias espaço-temporais, provocado por Lara Ovídio e Ludmilla Alves. 

O objeto metodológico adotado pelas artistas é simples, e não devemos nos deixar enganar, como precaveria certa vez, o simples engana-bobo. Entre o prego e a parede, a tarefa difícil: transpor o intransponível: procedimentos de aproximação de uma medida impossível: encontrar o horizonte no mínimo-fundo-abismo do furo. E já estamos atravessando o caminho certo se enxergamos aí um sinal do trabalho poético: como medir as distâncias dos diálogos no trabalho de arte? Como encontrar a via possível da comunicação efetiva e afetiva na ação do fazer em conjunto, na procura de si frente ao outro? 

Um dado suplementar é que os trabalhos desta exposição foram delineados à distância, em trânsitos de toda ordem, entre Natal e Brasília. Assim, além da tentativa de diluir as distâncias, entre o contraste do gesto penoso, ao mesmo tempo concreto e metafórico, de perfurar uma superfície rígida de isolamento, a parede, e o mais sutil, de fotografar a poeira constelar, restaram composições, ou melhor, constelações, resultantes dessa tarefa do vagar errante dos diálogos pelo desconhecido, senão em repetições circulares, possibilitando que estas matérias duras e escuras, apareçam, ao menos para produzirem testemunhos de suas imponderabilidades. 

O abismo não é um fundo, é uma sugestão de fundos, é o encontro de profundidades ao acaso. Tal é o mistério do diálogo presente na Lonjura, palavra-conceito emprestada do helenista português Eudoro de Sousa (1911-1987): ”a imagem”, escreveu ele, “está sempre diante de nossos olhos, a ‘coisa’, sempre fora do alcance de nossos passos”. As coisas: a poeira, o prego e o buraco; as imagens: “situações”, “um gesto sonoro que resulte plástico” e “profundidade desconhecida”; juntas, coisas, imagens e gestos: medida indeterminada da representação, vagantes escrituras da matéria (e) do espaço, lonjuras. 

 

 

Gregório Soares*

Brasília, novembro de 2015.

 

*Artista e mestre em Poéticas Contemporâneas - PPG-Arte/UnB.