Old São Rafael

The waters began by washing the streets away. Then they took the houses, the town square, the train station, the school, the cemetery, and the church. The town submerged under the waters of a new dam in the countryside of Northeastern Brazil, and more precisely, in the state of Rio Grande do Norte. It has been thirty years since São Rafael passed away. Even if towns do not do so.

Due to the lack of rain, the water has receded and the town has reappeared, its pieces scattered on the ground. Its fragile ruins have the tranquility of the eternal things, although soon to become undone as the bricks are slowly carried away.

I walked alongside my father around the old town. Beholding the ruins, he sought his childhood home; finding it many times and losing it in the next moment, just to find it once more. For each here, he could recreate the blueprint, describe the path that led to the garden and recognize the floor that in the blink of an eye would be someplace else. 

Of the town, almost everything but the earth was gone. The earth, giver of memories.

Through these photographs, I recreated the pursuit of my father for his town and his invented memories, departing from the hypothesis that there is a parallel among layers of memory, image, and imagination. Earth, emptiness, narratives, and invention. Throughout the gathering process, I could get closer to the testimonials from the stones, the sand, and the whelks. Whereas through the video I meet the water that flows undisturbed.



São Rafael Velha

As águas começaram lavando as ruas, depois tomaram as casas, a praça, a estação de trem, a escola, o cemitério e a igreja. A cidade submergiu nas águas de uma barragem no interior do Nordeste do Brasil, exatamente no Rio Grande do Norte. Tem trinta anos que São Rafael passou. Mesmo que cidades não passem.

Pela falta de chuva, a água recuou e a cidade reapareceu derramada pelo chão. Suas frágeis ruínas têm a tranquilidade das coisas eternas, mas vão se desfazendo ao passo que seus tijolos vão sendo levados.

Acompanhei meu pai em algumas caminhadas pela cidade velha. Diante das ruínas, ele buscou a casa da infância, encontrou-a várias vezes, perdeu-a no momento seguinte, e tornou a encontrá-la. Para cada aqui, pôde reconstruir a planta, descrever o caminho do jardim e reconhecer o piso que no instante seguinte já estariam noutro lugar.

Da cidade, quase só restou chão. Chão, provedor de lembranças. 

Nas fotografias, recriei a busca do meu pai por sua cidade e suas lembranças inventadas, partindo da hipótese, que haja um paralelo entre as camadas da memória, da imagem e da imaginação. No trabalho de coleta, pude me aproximar dos testemunhos das pedras, da areias e dos búzios. Enquanto através do vídeo encontro a água que segue impassível.