Projeto esperas

Conheci Aharon no começo de abril de 2017, no Café Curto, no centro do Rio de Janeiro. Já conhecia um pouco do seu trabalho e seu interesse por filas, ele conhecia um pouco do meu e meu interesse por esperas. Decidimos iniciar no domingo seguinte uma série de experimentações em torno da possibilidade de esperar por, doar tempo, alargar os dias, alargar imaginações, colecionar palavras, justificativas, e sobretudo desafiar a ideia de que tempo é dinheiro. Tivemos uma semana para colaborar.

Decidimos que a única forma de compartilhamento dessa experiência seria o texto, por sua resistência natural à materialidade e por sua potência descritiva. A seguir, o primeiro e o último dia de trabalho.

lara ovídio e aharon amir | performance | duração variável | 2017


Proposição para a espera 1/ tempo não é dinheiro

“Não, não precisa.” “Não, não precisa”. “Não, não precisa”. “Não, não precisa”. “Não, não precisa”. Ninguém me respondeu “não, não quero”. A quinta pessoa que abordei me perguntou: “Por que?” Respondi da pior forma possível: “vim ao supermercado para fazer isso”. Imediatamente, a moça me perguntou: “isso é uma performance?” Respondi: “mais ou menos”. Ela se deu por satisfeita e aceitou a oferta. Combinamos que eu esperaria na fila 24. Enquanto estava na fila, ficava fazendo um esforço para lembrar dela e do seu esposo, pareciam assim: uma moça negra de mais ou menos 25 anos, com um cabelo black power e talvez uma faixa vermelha e um moço branco careca de camisa quadriculada. Esperei uns 30 minutos na fila para eles, até que vi o moço de longe e acenei, imaginando que ele me procurasse. Quando me viu, sorriu e foi ao meu encontro, confessou haver esquecido que eu estava na fila esperando no lugar deles. Agradeceu a cortesia, conversamos uns poucos minutos sobre a sua origem, sobre sua profissão e a de sua esposa. 

Enquanto esperávamos, eu na fila 24, e Aharon na 14, entendemos que uma parte das negativas se relacionavam às pessoas deduzirem que teriam que nos pagar. Combinamos que para a segunda busca, esclareceríamos às pessoas que aquela oferta não pedia nada em troca.

Abordei muitas pessoas na minha segunda tentativa, o “não, não precisa” se repetia. Ao não precisa, eu respondia: “mas eu não vou cobrar nada”, algumas pessoas me explicavam que demorariam um pouco, às que eu respondia que isso não era, de forma alguma, um problema. Por fim, consegui que uma senhora aceitasse minha oferta de espera. 

Minha segunda espera foi a mais longa de todas. Cheguei à boca do caixa muitas vezes e deixei as pessoas passarem, imaginei que a senhora precisasse de um pouco mais de tempo para terminar suas compras. 

Nessa segunda espera, pude observar e esboçar alguns corpos enquanto esperam: se apoiam no carrinho, em apenas um dos pés, como se o outro pudesse ser economizado e se curvam. É de tanto esperar que os corpos se curvam. Se curvam, num desenho que prevê o corpo da velhice, experimentam este corpo de uma forma passageira e reversível. 

Comecei a olhar as prateleiras, tentando identificar a mulher pela qual eu esperava, vi muitas mulheres parecidas a ela e, quanto mais eu procurava, mais minha lembrança se diluía e se misturava com as mulheres que eu via. Ela não era nenhuma daquelas, mas ao mesmo tempo poderia ser qualquer uma delas. Quanto mais eu esperava menos eu sabia por quem eu esperava. Entendo, em algum momento da espera, que as pessoas podem ou não vir. Entendo que ela não vai mais voltar. 

A minha espera no lugar de outro, em um lampejo, se tornara espera para mim: eu espero por ela e não para ela. A espera, para mim, não durou mais que uma fração de segundo: me dou conta e deixo a fila. Ou, talvez, desisto e saio da fila? Desisto por esquecer o rosto da pessoa para quem espero, ou por não acreditar em seu retorno? 

Só é possível esperar uma vida inteira por alguma coisa que não vai chegar, ou por alguma coisa que vai chegar no último segundo.

Terceira tentativa do dia: decido que vou anotar uma descrição da próxima pessoa, que ainda que imprecisa é algo a que posso recorrer. Só precisei abordar três pessoas nessa terceira incursão. Uma moça usando fones de ouvido brancos, alta, branca com a pele avermelhada e de cabelo loiro aceitou minha proposta. Aceitou dizendo que gostaria de me dar alguma coisa em troca, lhe disse que não era necessário. Ela disse, no entanto, que gostaria de me ajudar, porque eu estava lhe ajudando, então, eu disse que aceitaria o que ela quisesse me dar, que ela podia escolher e me dar quando nos reencontrássemos. Marcamos outra vez na fila 24. Essa espera foi a mais rápida de todas. Rápida em tempo, não durou mais de 15 minutos, mas rápida também porque eu tinha quase certeza que ela voltaria. Como se a certeza de que eu esperava por algo que aconteceria, ou o fato de saber exatamente pelo que eu esperava, acelerasse a espera, ou trouxesse um pouco de conforto para ela. Quando a moça voltou, me deu um abraço e me agradeceu, eu também lhe agradeci e fui embora.

Minha quarta tentativa não teve êxito, perguntei a muitas muitas muitas muitas pessoas. O “não precisa” se fortaleceu como resposta. 










Ninguém mais quis desperdiçar meu tempo. 


Espera prevista: Pão de Açúcar | Espera realizada: ambulância.


Uma mulher caiu no chão. Faltaram-lhe forças por mil motivos, a maioria deles eu desconheço, os atestados médico e cientificamente são: tuberculose, HIV e álcool. Coincidentemente, Aharon passava pela mesma rua que ela; um moço andando de bicicleta também. Uma mulher caiu na Av. Augusto Severo, ao lado da Praça Nossa Senhora da Glória, às 15h30 do dia 17.05.2017. A mulher negra, cujos ossos marcavam a pele, deixando-nos ver seu esqueleto com perfeição, não cruzou o meu caminho, nada do que contei até aqui vi de fato acontecer. Ela cruzou o caminho de Aharon, que ia me encontrar para irmos esperar no Pão de Açúcar. Íamos para a fila perguntar às pessoas sobre a possibilidade de esperar no lugar delas, ou talvez com elas. Quando a mulher, Maíra, cruzou o caminho de Aharon cruzou também o meu. Saí de casa caminhando para a Praça da Glória sem saber o que havia acontecido. Por telefone, Aharon mencionara apenas uma mulher e uma ambulância. Chegando à Praça, encontro a mulher estendida no chão. A cada tanto, se esticava convulsionando e chorava. Sentia muita dor.  A espera da ambulância que havia se iniciado – para Aharon, o moço de blusa azul, o aterro presente #1, aterro presente #2, aterro presente #3, o guarda municipal, amigo de Maíra #1 e amigo de Maíra #2 – há quase uma hora, se tornava minha também.

Esperamos um tempo juntos, até que os guardas do aterro presente resolveram ir embora, justificando que não podiam ficar parados. O guarda municipal foi o segundo a ir, supostamente precisaria retornar à sua base para pegar o celular. Depois de uma hora e meia decorrida, começamos a desconfiar que nossa espera poderia demorar-se dias, meses, anos. Pude ver-nos a todos velhinhos, dentro daquelas mesmas roupas, esperando, parados, curvados, por uma ambulância que jamais haveria sido mandada pelo SAMU. 

A espera se preenchia lentamente pelo medo de que aqueles que prestaram socorro pudessem ter sido infectados pela tuberculose. Também se preenchia pelo medo secreto que compartilhávamos de descobrir a qualquer momento que não esperávamos pela ambulância, mas pela morte de Maíra.

Duas horas de espera. O menino de azul avista um carro de polícia ao longe, sai, indignado, de bicicleta na contramão, decidido a parar os policiais. A polícia liga para a SAMU, somos informados que a emergência daquela senhora esquálida, na verdade não era emergência alguma. 

A espera foi interrompida por um grande acontecimento imaginal. Maíra, voltando a si, escuta a palavra hospital e a transforma em uma imagem: agulhas. Levanta e foge de nós cambaleando. 








Não esperávamos por nada. Esperávamos para esperar.