Pactos de intimidade

Mariana do Vale

Na infância, todo mundo queria selar amizades com sangue, imitando os filmes da sessão da tarde. Mariana também. Empregou sangue e ainda emprega. Investiga assim uma intimidade que se cria junto, mesmo sabendo em seu próprio corpo outras experiências. Para firmar encontros invasivos, inventou e deixou-se inventar em rituais que pediam um corpo disponível para atualizar o indizível. As imagens nos permitem acessar o risco, o encontro, o ruído, o silenciamento. O caminho que nos resta vai das palavras aos gestos, dos gestos ao tempo, do tempo ao incômodo e do incômodo, por fim, aonde não se quer chegar.

Lara Ovídio

Pactos de Intimidade | Mariana do Vale | Galeria João do Rio | Rio de Janeiro, RJ.




Duna | A busca de um si a que pertencer*

Mariana do Vale

Ontem, antes de dormir, pensava por onde começar esse texto e ensaiei usar as seguintes estatísticas: nos 10 livros de história da arte mais usados no Brasil, 2.169 dos artistas citados são homens, 215 são mulheres, duas mulheres são negras, uma delas é brasileira, as brasileiras e negras não coincidem. Hoje pela manhã decidi usar, pelo fascínio que os números nos causam.

 Somente em 2017 pude entender, com a ajuda de Linda[1], que o problema é que antes – de qualquer coisa – as mulheres precisam construir um mundo em que possam existir como artistas. Um mundo em que caibam suas questões. Há muito trabalho e não se pode esmorecer. Mariana tenta falar há muitos anos. Mas nos últimos cinco, usa seu corpo como lugar de fala e escuta a cada intento que esse corpo é bonito demais para falar de corpo. Talvez isso queira dizer que seu corpo não serve à arte. Talvez isso queria dizer que a seu corpo não lhe foi dado permissão. Sempre fico sem saber se o que lhe quita o direito de fala tem raiz estética, parda ou feminina. O corpo que deseja falar sem roupa se veste numa tentativa de disfarçar sua origem e seu gênero. Mas as raízes pardas resistem e se mostram nos lábios grossos e nas cores de pele que o vestido não cobriu. A todos os corpos pardos lhes foram negados o direito de produzir conhecimento. O mundo não faria diferente com o corpo de Mariana. A todos os corpos femininos lhes foram negados o direito de produzir conhecimento. O mundo não seria mais gentil com o corpo de Mariana.

A busca de um si a que pertencer de Mariana é de todas nós mulheres. É a construção de um mundo a que se possa pertencer. Quero dizer, um mundo em que caiba Mariana, um mundo em que me caiba, um mundo em que caibamos todas nós. Mariana trabalha todos os dias: para falar, para poder falar, para ser compreendida quando fala. Fala porque precisa falar, para poder falar e para poder algum dia talvez ser compreendida em sua fala.  Mariana trabalha todos os dias para você saber que não está sozinha[2].

 Lara Ovídio[3]

 

[1] Linda Nochlin – Porque não houve grandes mulheres artistas?

[2] Glória Anzaldúa – Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo.

[3] Lara Ovídio é mestra em Artes Visuais [EBA/UFRJ] e docente na UFRN [Decom].

* Exposição individual de Mariana do Vale | SESC-RN | novembro de 2017.