#ventadepieldelobosmarinosdeunsolopelo

#4

A imagem do pulmão que lhe acompanhava era própria. Nem uma miniatura de biscuit, nem uma imagem de enciclopédia, nem nada demais, apenas uma radiografia. Algumas vezes, olha apressadamente essa imagem, que já olhara tantas outras vezes, sente um certo medo de encontrar qualquer coisa que não deveria estar ali e desvia o olhar. Outro dia soube de uma mulher com 20 lentes de contato dentro de um olho e de um chinês com uma colher posicionada no esôfago. A radiografia do chinês parecia à sua, mas entre os pulmões estava uma colher que só pode ser retirada depois de 3h de cirurgia e um exercício de pescaria com uma máquina de laparoscopia. Outras vezes, posiciona a radiografia contra a janela e fica olhando demoradamente na esperança de que ao ver seus adentros, entenda qualquer coisa a mais sobre si. Conhece-te a ti mesmo, pode talvez abranger a fisiologia. De alguma maneira lhe encanta esse gosto da civilização de ver-se por dentro. No último ano viu-se muito: pés, pulmão, pulso direito, abdomem, mama e útero. Decidiu conhecer seus brânquios, pleura, lobos e alvéolos por uma tosse que insistia em não passar. Quis ter certeza que não havia nada demais alí, já que é de conhecimento popular os múltiplos focos de tuberculose na cidade em que vive. Recebera a recomendação de um doutor que além de acreditar no que as imagens mostram, acredita também no que elas podem prever. Nesses momentos, a imagem do pulmão se assemelha aos fígados de ovelha usados para vaticínios na antiguidade, com a diferença de que seu pulmão só é capaz de vaticinar seu próprio destino. Nada é mais assustador que isso.


#1

Começou o dia cedo estraçalhando cuidadosamente com unhas bem afiadas e verdes uma dessas coisas brancas do mar. Muito provavelmente uma alga, de menos de 7 cm que fora enxotada pela maré alta. Na maré alta supostamente cabem mais coisas no mar, muita coisa é acolhida, mas também estão aquelas que sobram sem qualquer motivo. Às vezes, parece que na maré alta cabem mais coisas e menos coisas dentro do mar. A alga branca tem sua própria resistência, mas o tempo todo a está prestes a quebrar. Ficou guardada até agora no bolsinho mínimo de um caderninho de viagens cuja capa convida a viver com ilusão, ou esperança, a depender do ânimo de quem o traduz. Dentro desse mesmo bolsinho estava um pedaço de dente igualmente branco. Um moço bem queimado pelo sol que estava sentado a sua direita, ou talvez a sua esquerda, numa formação triangular na ponta da lancha, abriu uma latinha de pastilha walda no preciso momento em que a lancha entrara em mar aberto. A lancha era pequena e tinha uma quantidade de pessoas que acreditavam que aquela lancha fosse capaz de navegar em mar aberto. Ou talvez não. O sol, os vôos, os risos do verão. Olhava a alga da blusa cinza do menino queimado, enquanto, abria discretamente a boca, para catar uma pedra branca que guardaria no último bolso da cadernetinha. O sol queimava enquanto a embarcação balançava. A pedra que guardara não media mais que 5 milimetros, absolutamente disforme como um meteorito, no entanto, menos polida, menos preta, menos metálica. Uma espécie de lembrança de si, para juntar à lembrança do mar. O dente fora arrancado delicadamente pela pastilha num momento de distração, sem qualquer espasmo, sem dor. Não valia nada, se a fada do dente existisse pagaria menos de 1 real pelo seu auto-souvenir. A pedra branca era um lembrete que sua boca fora distinta. Jogou em mar aberto, transformando seu auto-souvenir em uma oferenda à Bahia. A auto-oferenda seguiu seu curso, ficando alí depositada ao lado dos corais pelos próximos milhares de anos. Ou talvez tenha matado um peixe minusculo, no caminho até o coral em que descansaria futuro à diante. Lembrou-se do tempo do dente, enquanto tirava cochonilhas de um cacto, pensando se seria uma atividade semelhante a palitar dentes de um dinossauro.