#science

#4

A imagem do pulmão que lhe acompanhava era própria. Nem uma miniatura de biscuit, nem uma imagem de enciclopédia, nem nada demais, apenas uma radiografia. Algumas vezes, olha apressadamente essa imagem, que já olhara tantas outras vezes, sente um certo medo de encontrar qualquer coisa que não deveria estar ali e desvia o olhar. Outro dia soube de uma mulher com 20 lentes de contato dentro de um olho e de um chinês com uma colher posicionada no esôfago. A radiografia do chinês parecia à sua, mas entre os pulmões estava uma colher que só pode ser retirada depois de 3h de cirurgia e um exercício de pescaria com uma máquina de laparoscopia. Outras vezes, posiciona a radiografia contra a janela e fica olhando demoradamente na esperança de que ao ver seus adentros, entenda qualquer coisa a mais sobre si. Conhece-te a ti mesmo, pode talvez abranger a fisiologia. De alguma maneira lhe encanta esse gosto da civilização de ver-se por dentro. No último ano viu-se muito: pés, pulmão, pulso direito, abdomem, mama e útero. Decidiu conhecer seus brânquios, pleura, lobos e alvéolos por uma tosse que insistia em não passar. Quis ter certeza que não havia nada demais alí, já que é de conhecimento popular os múltiplos focos de tuberculose na cidade em que vive. Recebera a recomendação de um doutor que além de acreditar no que as imagens mostram, acredita também no que elas podem prever. Nesses momentos, a imagem do pulmão se assemelha aos fígados de ovelha usados para vaticínios na antiguidade, com a diferença de que seu pulmão só é capaz de vaticinar seu próprio destino. Nada é mais assustador que isso.


#3

Era quatro da manhã quando começou a escutar pingos intensos sobre sua cabeça. Estava dormindo e acordou com o barulho. Foi ao banheiro e teve certeza que a água pingava alí em cima, voltou ao quarto, e teve a mesma sensação. Uma ou duas goteiras. Misteriosamente, não chovia. Uma infiltração. Acendeu as luzes e procurou qualquer vestígio de água pingando do teto, nada. Ainda assim, decidiu cobrir cuidadosamente o computador, o celular, algumas fotografias e duas ou tres coisas a mais que lhe importavam e não podiam molhar. Deitou outra vez, e, imediatamente, se lembrou de alguns livros que estavam no chão e certamente apareceriam boiando no dia seguinte quando as goteiras resolvessem mostrar serviço, permitir a água entrar. Levantou outra vez e subiu os livros para uma prateleira. Lembrou-se da gota chinesa, o método de tortura em que o prisioneiro imobilizado recebe gotas de água na cabeça a cada 5 segundos. Pensou se o ruido constante seria uma provocação do vizinho, mas não sabia se havia vizinho. Pensou mesmo em bater no teto com um cabo de vassoura, mas decidiu apenas juntar objetos flutuantes capazes de ajudar em sua sobrevivência, caso precisasse construir uma arca para sair dali. Pegou também dois baldes e posicionou no quarto e no banheiro de acordo com o som. Dormiu tranquila. Acordou no dia seguinte sem uma única gota de água no chão. Não estava nem um pouco louca, as estalactites crescem frações de milímetro por ano. Muito mais lentas que suas unhas, por exemplo. Sabendo que eram úteis para estudar variações climáticas de 100 mil anos atrás, sentiu-se feliz trabalhando pro futuro.