#nonameproject

#3

Era quatro da manhã quando começou a escutar pingos intensos sobre sua cabeça. Estava dormindo e acordou com o barulho. Foi ao banheiro e teve certeza que a água pingava alí em cima, voltou ao quarto, e teve a mesma sensação. Uma ou duas goteiras. Misteriosamente, não chovia. Uma infiltração. Acendeu as luzes e procurou qualquer vestígio de água pingando do teto, nada. Ainda assim, decidiu cobrir cuidadosamente o computador, o celular, algumas fotografias e duas ou tres coisas a mais que lhe importavam e não podiam molhar. Deitou outra vez, e, imediatamente, se lembrou de alguns livros que estavam no chão e certamente apareceriam boiando no dia seguinte quando as goteiras resolvessem mostrar serviço, permitir a água entrar. Levantou outra vez e subiu os livros para uma prateleira. Lembrou-se da gota chinesa, o método de tortura em que o prisioneiro imobilizado recebe gotas de água na cabeça a cada 5 segundos. Pensou se o ruido constante seria uma provocação do vizinho, mas não sabia se havia vizinho. Pensou mesmo em bater no teto com um cabo de vassoura, mas decidiu apenas juntar objetos flutuantes capazes de ajudar em sua sobrevivência, caso precisasse construir uma arca para sair dali. Pegou também dois baldes e posicionou no quarto e no banheiro de acordo com o som. Dormiu tranquila. Acordou no dia seguinte sem uma única gota de água no chão. Não estava nem um pouco louca, as estalactites crescem frações de milímetro por ano. Muito mais lentas que suas unhas, por exemplo. Sabendo que eram úteis para estudar variações climáticas de 100 mil anos atrás, sentiu-se feliz trabalhando pro futuro.