#medicalstuff

#4

A imagem do pulmão que lhe acompanhava era própria. Nem uma miniatura de biscuit, nem uma imagem de enciclopédia, nem nada demais, apenas uma radiografia. Algumas vezes, olha apressadamente essa imagem, que já olhara tantas outras vezes, sente um certo medo de encontrar qualquer coisa que não deveria estar ali e desvia o olhar. Outro dia soube de uma mulher com 20 lentes de contato dentro de um olho e de um chinês com uma colher posicionada no esôfago. A radiografia do chinês parecia à sua, mas entre os pulmões estava uma colher que só pode ser retirada depois de 3h de cirurgia e um exercício de pescaria com uma máquina de laparoscopia. Outras vezes, posiciona a radiografia contra a janela e fica olhando demoradamente na esperança de que ao ver seus adentros, entenda qualquer coisa a mais sobre si. Conhece-te a ti mesmo, pode talvez abranger a fisiologia. De alguma maneira lhe encanta esse gosto da civilização de ver-se por dentro. No último ano viu-se muito: pés, pulmão, pulso direito, abdomem, mama e útero. Decidiu conhecer seus brânquios, pleura, lobos e alvéolos por uma tosse que insistia em não passar. Quis ter certeza que não havia nada demais alí, já que é de conhecimento popular os múltiplos focos de tuberculose na cidade em que vive. Recebera a recomendação de um doutor que além de acreditar no que as imagens mostram, acredita também no que elas podem prever. Nesses momentos, a imagem do pulmão se assemelha aos fígados de ovelha usados para vaticínios na antiguidade, com a diferença de que seu pulmão só é capaz de vaticinar seu próprio destino. Nada é mais assustador que isso.


#2

No fim das contas ninguém sabe exatamente como escovar os dentes. Não há evidência que comprove que técnicas elaboradas sejam mais eficazes que uma escovada simples. A pesquisa da University College of London teria economizado boas horas de discussão com sua mãe, se houvesse sido publicada ainda em sua infância. Não deu essa sorte e teve que se submeter a um policiamento ostencivo, que vigiava não apenas frequencia da higiene bucal, mas sobretudo o modo de fazê-lo. Não só ao policiamento, mas também aos longos discursos enaltecendo o próprio policiamento. Hoje se deparou com a escova elétrica, escutou, como quem se interessa, um colega de trabalho falar um par de horas sobre o plano de adquirir uma. Uma bem barata custa R$38, uma bem cara R$500. Nunca entendeu bem se a escova elétrica servia para economizar trabalho, ou para massagear as gengivas. Resolveu não perguntar. Numa rápida busca sobre as razões para se ter uma escova elétrica encontrou um modelo que traz um temporizador capaz de indicar o tempo exato para escovar cada um dos quatro quadrantes da boca. Apesar de toda imprecisão na ciência do asseio bucal, as instruções para uma escovação perfeita não param de se multiplicar. Desistiu dessa investigação e retornou à primeira aba, num pequeno texto que se seguia ao da fragilidade das escovações, tentava responder se o fluor seria ou não usado para controlar mentes. De repente, toda a história do temporizador fez bastante sentido.