#espreita

01.01.2017

Estou parada sobre o primeiro dia de 2017, que em tudo, nos mais mínimos detalhes, se assemelha ao último dia de 2016. 

De ontem pra hoje, vivi o que fiquei na dúvida se era minha primeira insônia de 2017, ou minha última de 2016. Se Patti estiver certa, com todas as suas superstições sobre o que fazemos no primeiro dia do ano e sobre como isso se repete o ano inteiro, eu terei muita insônia, e passarei o ano com Cortázar. Prefiro pensar, nesse caso, que haja sido uma despedida do ano mais insone da minha vida. Olhei o calendário lunar, a lua nova não explicava a desobediência dos meus olhos ao cansaço do meu corpo. Mas gostei de pensar que ela traz, assim como a mudança de ano, a ideia de que tudo ainda está para acontecer. 

Depois de um cochilo eu fui pro mar. Minha mãe nem lembrava mais a última vez que ela tinha entrado na água, fizemos todos um esforço e nada! Eu lembro que ela usava um maiô, não, um biquini preto, eu acho. Não sei que idade eu tinha, mas certamente eu era criança. Entramos todos na água. Minha mãe e meu pai queriam rezar, como eu não tinha um rito meu, aceitei o desejo deles de emprestarem suas rezas a mim. 

A primeira cena de hoje, a primeira que eu realmente vi, foram dois meninos descendo o morro do careca rolando. Achei lindo. Antigamente, meu avô dizia que a primeira pessoa que se via em um ano, trazia consigo notícias de sorte ou de azar. Fiquei pensando se eu poderia relacionar as duas coisas. Se sim, acho que esses meninos, nem me adivinharam sorte, nem azar, mas bem muita poesia.

Sem título #1

Um
O que é possível fazer com oque não terminamos de entender?
Uma vez eu convidei uma amiga para um trabalho colaborativo partindo de um texto que não conseguissemos entender. Esse projeto nunca foi realizado.

 

Dois
É preciso estar a espreita, segundo Delleuze.

 

Três
Se esse trabalho fosse somente sobre Drawing Restrains, n.9. de Matthew Barney, eu não sei o que eu faria.

 

Quatro
Será que a chave para entender o desenho da figura oval cortada por uma barra é repeti-lo a exatustão? Talvez Barney estivesse nos sugerindo isso, mostrando-a tantas vezes repetida. Claro que eu fui procurar na internet se aquilo significava alguma coisa. Encontrei que era o simbolo de um corpo com restrições, seria como a forma própria do título: Drawing Restrains. Uma explicação que não me disse nada.

 

Um
Há pessoas sobre as quais posso afirmar que não entendo nada do que dizem, mesmo coisas simples como: “passe-me o sal”. Não consigo entender. (Delleuze)

 

Três
Se esse trabalho fosse somente sobre Drawing Restrains, n.9. de Matthew Barney, eu falaria sobre o tédio. Mas aí veio Delleuze e falou de amizade.

 

Quatro
Repetir
Repetir
Até ficar diferente

(Manoel de Barros)

 

Um
Eu queria construir uma frase insignificante, como essa mesma que construo agora.

 

Um
Um trabalho colaborativo precisa se dar entre duas pessoas? Ou eu posso colaborar com a obra de alguém? Pensei no que Delleuze disse, que o encontro entre pessoas é desastroso, que antes é preciso encontrar uma coisa.

 

Três
Se esse trabalho fosse somente sobre Drawing Restrains, n.9. de Matthew Barney, eu falaria sobre o tédio. Mas aí veio Delleuze e falou de amizade. Talvez eu fale sobre amizade também.

 

Quatro
Delleuze escolheu Resistência para o “R”, eu escolheria Repetição.

 

Cinco
A ilha do fundão foi construida artificialmente a partir da técnica aplicação de aterro. Outro quase entendimento.

 

Quatro
Repetir uma frase em silêncio.

 

Cinco
Minha prima Giovana perguntou sobre onde minha irmã estava, eu respondi que em Cuba. Expliquei-lhe que Cuba era uma ilha. Naquela tarde construimos uma ilha que durou tão pouco que sequer recebeu nome. Utilizamos uma bacia de aluminio, água do açude e um copo de geléia (desses que se usa pra tomar café).

 

Três
Se esse trabalho fosse somente sobre Drawing Restrains, n.9. de Matthew Barney, eu falaria sobre o tédio. Mas aí veio Delleuze e falou de amizade.