#arqueology

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Encontrou sobre a mesa branca um cabelo branco. Se não mexesse, quanto tempo ficaria alí? Daquela mesa para onde iria? Se jogasse no lixo ou no esgoto, quanto mais duraria sobre a terra? Lembrou-se do bigode de Dalí, encontrado intácto 30 anos depois da morte do artista, com as pontas perfeitamente enroladas. Já havia visto alguns cabelos brancos na sua cabeça, mas nunca havia topado com um deles assim, pelo meio do caminho. Isso significava provavelmente que já teria tantos que começavam a cair em quantidade igual aos pretos, cor original do seu cabelo. Disfarçar os cabelos brancos é fácil, uma tintura bem feita combinada com hidratações regulares é suficientes, o problema é disfarçar todo o resto, as rugas e a flacidez mais mínima da pele que só ela mesma podia perceber. Descobriu que os cabelos agora ficam brancos em média 5 anos antes, há uma década os primeiros fios apareciam aos 30 ou 40. Os motivos prováveis são estresse e estilo de vida: nada de novo sob o sol. Encontrou uma única pesquisa em curso com reais chances de êxito, uns cientistas de uma marca de cosméticos que querem criar um suplemento alimentar para que os melanócitos da cabeça não parem de trabalhar com a idade, assim como não param os da pele. Achou engraçado que só existissem dados sobre o embranquecimento das cabeças de mulheres, depois ficou puta. Pensou se esbarrar com esse discreto pedaço de si seria uma espécie de alerta sobre a vida que leva, ou uma oportunidade de se somar àquelas que desfilam maus costumes.