Lula e o tarot. Eleonora e os levantes.

Hoje me saiu a carta da temperança do Tarot. Minha ligação com essa carta tem a ver com imagem e não com seu significado. Me remete à performance em que Eleonora Fabião com duas jarras na mão, passa água de uma a outra até que toda a água evapore. Um trabalho sem fim, como somente a arte permite no mundo dos fins e da eficiência produtivista neoliberal. A carta aconselha: o caminho passa pelo meio. São palavras relacionadas a ela: cura, prudência, equanimidade, benevolência.  Listei nomes, passeei sobre as possibilidades que essa carta me abria, cheguei quase sem querer a Lula. Lula que em 2019 consegue se ocupar de “tentar gostar mais do ser humano”. Os dois pólos em que se dividem país não divergem apenas no que tem a ver com os entendimentos econômicos, mas sobretudo nas escolhas dos afetos que podem mover o mundo. Nada de novo, mas de vez em quando eu esqueço disso. Especialmente porque diante das injustiças sociais só um monge como Lula para não cultivar o ódio diariamente. A revolução não será armada como foram todas as outras, porque a própria ideia de levante precisa ser reinventada. Nisso, o anjo da carta da temperança aconselhou-me bem: se não acredita em mim, comece por imaginar-me.  Na época das eleições tivemos uma espécie de respiro, uma desejo coletivo, de, como Lula, acreditar mais no ser humano. Um desejo de não se deixar tomar pelos modos de vida individuais e individualizantes, como os propostos diariamente pelos pequenos aparelhos portáteis que simulam mundos a qualquer mão. As imagens das pessoas conversando nas ruas me lembrou outro trabalho de Eleonora, aquele em que ela posicionava duas cadeiras na rua e conversava sobre qualquer assunto. Conversar que parecia tão pouco há alguns anos, tornara-se pronto um gesto revolucionário. O único modo de se fazer política, segundo Lula. Lula explicou muito bem que função da reforma da previdência não é gerar 1 trilhão. UM TRILHÃO PARA QUE? Pergunta. Em seguida, lista uma série de medidas para gerar um trilhão sem tirar do velhinho. Não é que eles não saibam. Lula sabe muito bem disso. A reforma da previdência vai acontecer para promover a diferença e aprofundar a desigualdade de que sobrevive o sistema. Conciliar que parecia tão pouco há alguns anos, tornara-se pronto um gesto revolucionário. Entre tantas notícias, ora desesperadoras, ora patéticas, Lula mostrou que o pessimismo é um luxo que ele não pode se dar. Eu entendi que eu também não poderia. Mostra que ao invés de gastar tempo em desespero é preciso sonhar futuros não neoliberais. Um chamamento. Já que a arte é esse lugar, como nos mostrou Eleonora, de experimentar ação.