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As baratas eram uma característica muito forte daquele lugar. Não por serem toscas, nojentas ou fedidas, nem por subirem pelos ralos no chão e nas pias, nem por terem pulado no braço da pessoa que dormia no quarto mais perto da saída de serviço. Eram importantes por moldarem os hábitos da casa: o lugar da mesa na casa, a vedação do filtro de água, a forma de armazenamento dos alimentos, quanto tempo era possível gastar comendo, a forma ótima eliminar a comida do prato, quantos minutos a louça poderia ficar sem lavar, quantas vezes ao dia era preciso tirar o lixo, etc. Aprendera há uns anos a agarrá-las pelas antenas. Nem bom nem ruim, mas uma característica bem específica para uma criança. Assim como era específico que fizesse parte do seu ritual de dormir espalhar objetos pelo chão do quarto, alguns com função de espantalho, outros de mero obstáculo. Eram variados: cercados, carros, bonecas, feias e bonitas, morcegos, vaquinhas, sabonetes, livros, dominó. Às vezes demorava a dormir esperando que alguma barata chegasse e colocasse a prova a eficiência de suas arapucas. Outras vezes, demorava a dormir com medo que seu exército não desse conta da missão que lhe fora destinada. Acordar com uma barata no seu próprio braço seria mais do que nojento, mas pior ainda seria que alguma grudasse no gloss de morango que usava todas as noites para hidratar os lábios. Sempre foi uma dúvida a possível predileção de baratas por sabores fortes e artificiais. Ao mesmo tempo, esse nojo se misturava com uma curiosidade, planejava, para quando a primeira barata caísse na caixinha transparente com desenhos de rosa que finalizava o labirinto, dar-lhe nome: odete, waldete ou cleide. Nunca lhe saiam nomes masculinos para as baratas, não entendia bem porque. Ensaiou conversas em que vestiria as antenas de tevê e perguntaria sobre desastres nucleares, esgotos, dinossauros e sobre a capacidade asquerosa de comer carne em putrefação. Mas as baratas não chegaram. O aperfeiçoamento de todo os sistema de captura levou algum tempo, tempo em que as infinitas regras de assepsia começaram a surtir efeito. Quanto mais condições tinha de captura, menos exemplares tinha disponíveis transitando pelo lugar. Passou a levantar no meio da noite para abrir a porta do banheiro, depois os ralos. Não foi suficiente. Começou a rezar e implorar a Deus sorte de ter uma baratinha mínima que fosse capturada. Mas as baratas não chegavam. Ainda que advertisse sua mãe sobre quão vigilante estava com relação aos insetos, e sobre um possível desinteresse deles por aquela casa, as regras permaneciam. Quanto menos as baratas chegavam mais as regras se estabeleciam: cada vez era possível esperar menos tempo entre a última garfada e a hora de lavar o prato. As baratas não chegavam, não voltavam, não frequentavam mais aquele lugar. Achava uma injustiça sem fim que quanto mais condições de captura e diálogo tinha, mais impossível fosse realizá-las. Era talvez hora de pedir ajuda aos vizinhos, ou deixar isso pra lá, ou adaptar o sistema para formigas. Mas antes de desistir, decidiu acrescentar um último passo ao seu ritual de abrir portas e ralos, buscar um pouco de comida para deixar alí, dentro da caixinha transparente com desenhos de rosas, bem pertinho de si.