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Da primeira vez que quebrara um dente estava no cinema assistindo um filme e comendo pipoca. Na verdade, quando o dente partiu, o filme nem tinha começado ainda. Os trailes de filmes infantis testemunharam sua angústia de descobrir uma pedra solta rolando em sua própria boca. Pegou a pedra, tentou olhar contra a luz, mas não entendeu nada. O conserto do dente custariam-lhe precisos R$1380,00, que pagos em uma única parcela se tornavam R$1200,00. Era quase todo o dinheiro que recebia por mês para pesquisar alguma coisa do futuro, como nano equipamentos para corpos mutantes ou os efeitos de uma alimentação sintética em corpos no espaço. A solução da dentista era um bloco, também conhecido como restauração indireta: o dentista cria o molde, manda para um laboratório de próteses e cimenta no local. A ideia de cimentar uma nova parte dentro de si deu-lhe um pouco de graça, que logo passou. Descobriu que o bloco seria confeccionado de porcelana. Imaginar um pedaço de porcelana nos seus restos mortais foi um pensamento mórbido. Uma inarqueologia de si. Outro dia encontraram lápis-lazúli no tártaro dos dentes de uma senhora da idade média. Esses dentes azulados mudaram toda a história da escrita: a feitura dos manuscritos medievais deixara de ser exclusividade dos monges. O tártaro acolhe pedaços mínimos de insetos, pólen de flores, lã, proteínas e, agora, pigmentos de pedras preciosas. O tártaro pode dar início a uma revolução feminista. Incrustar uma porcelana em sua arcada dentária inventaria para ela uma vida que não teve. Ao mesmo tempo pensou que só seria possível falsear sua própria existência se adivinhasse os arqueólogos do futuro. Na dúvida, acolheu porcelana e tártaro, como quem escreve uma autobiografia ficcional.