#1

Começou o dia cedo estraçalhando cuidadosamente com unhas bem afiadas e verdes uma dessas coisas brancas do mar. Muito provavelmente uma alga, de menos de 7 cm que fora enxotada pela maré alta. Na maré alta supostamente cabem mais coisas no mar, muita coisa é acolhida, mas também estão aquelas que sobram sem qualquer motivo. Às vezes, parece que na maré alta cabem mais coisas e menos coisas dentro do mar. A alga branca tem sua própria resistência, mas o tempo todo a está prestes a quebrar. Ficou guardada até agora no bolsinho mínimo de um caderninho de viagens cuja capa convida a viver com ilusão, ou esperança, a depender do ânimo de quem o traduz. Dentro desse mesmo bolsinho estava um pedaço de dente igualmente branco. Um moço bem queimado pelo sol que estava sentado a sua direita, ou talvez a sua esquerda, numa formação triangular na ponta da lancha, abriu uma latinha de pastilha walda no preciso momento em que a lancha entrara em mar aberto. A lancha era pequena e tinha uma quantidade de pessoas que acreditavam que aquela lancha fosse capaz de navegar em mar aberto. Ou talvez não. O sol, os vôos, os risos do verão. Olhava a alga da blusa cinza do menino queimado, enquanto, abria discretamente a boca, para catar uma pedra branca que guardaria no último bolso da cadernetinha. O sol queimava enquanto a embarcação balançava. A pedra que guardara não media mais que 5 milimetros, absolutamente disforme como um meteorito, no entanto, menos polida, menos preta, menos metálica. Uma espécie de lembrança de si, para juntar à lembrança do mar. O dente fora arrancado delicadamente pela pastilha num momento de distração, sem qualquer espasmo, sem dor. Não valia nada, se a fada do dente existisse pagaria menos de 1 real pelo seu auto-souvenir. A pedra branca era um lembrete que sua boca fora distinta. Jogou em mar aberto, transformando seu auto-souvenir em uma oferenda à Bahia. A auto-oferenda seguiu seu curso, ficando alí depositada ao lado dos corais pelos próximos milhares de anos. Ou talvez tenha matado um peixe minusculo, no caminho até o coral em que descansaria futuro à diante. Lembrou-se do tempo do dente, enquanto tirava cochonilhas de um cacto, pensando se seria uma atividade semelhante a palitar dentes de um dinossauro.