Gestos Inúteis

para Funes

Passo a outra mão no cabelo. Faço formas estranhas com a boca, como quem pensa. Como quem não pensa. Cruzo as pernas em cima do banco. As pernas adormecem. Desço a perna esquerda. Tomo um gole de café frio. Escrevo enquanto coço a perna direita e penso que talvez eu devesse passar repelente antes de dormir. Apoio o pé esquerdo nas madeiras que conectam as pernas do banco em que estou sentada. O banco tem no tampo um azulejo de um galo portugues. Junto as pernas, ambos os pés estão apoiados na madeirinha. Coço o queixo. Solto o lápis pra passar as duas mãos no cabelo. Eu podia fazer um haicai sobre a repetição dos dias. Olho minha mão esquerda. Tenho uma cicatriz discreta no anelar. Tem meses que não faço a unha. Um mosquito minúsculo caminha na orquídea amarela de R$5,00. Será como subir uma ladeira? A disney sempre pensou sobre isso. Eu nunca. Encontrei tudo pensado. Coço o olho esquerdo. De novo. Agora usando as unhas. Funes se veria a si mesmo assim? Tiro a franja de cima do meu olho esquerdo. Coço o nariz com a mão do lápis. Coço o joelho esquerdo. Já me perdi na posição das pernas. Troquei. Preciso arrumar meu óculos. Bocejo. Olho pra fora da janela. Perdi o mosquito minúsculo de vista. Coço a nuca. Bocejo. Não sei exatamente o que eu estou fazendo. O que será que eu penso antes de me levantar? Tomo um gole de café frio. Não gelado, na temperatura ambiente. Esse texto é um lixo. Até quando eu poderia seguir com isso? Coço o nariz. Aperto o lápis com a mão direita pra sair mais ponta. Eu acho tão bonito ser canhoto. Eu queria passar batom com a mão esquerda. A medida pode não ser de tempo mas de espaço. Bocejo. Coço o olho direito com a mão esquerda. Coço as cicatrizes do meu ombro direito. Olho pra porta. Bocejo. Não tem fim. Já sei. Tiro o cabelo do rosto com a mão que seguro o lápis. Bocejo por mil anos. Eu sempre penso que vou acordar à medida que o tempo passa. Nem sempre acontece. Um mosquito minúsculo pousou no meu braço. Me deu pose de montanha russa, como a centopéia. Será que pros bichos que voam a montanha russa tem a mesma graça que pra mim? Porque será que eles andam no meu braço? Se eu voasse não gastaria quase tempo andando. Teria mais asas que pernas. Como uma galinha. Talvez esse mini mosquito tenha, mas eu não consigo ver. A orquídea amarela tem pontinhos cor de vinho.

 

escrito em novembro de 2015