Pensamentos sobre o cotidiano

(Deborah Berke)

Retrospectivamente, a I-95 era um ótimo lugar para conversar duas vezes por semana sobre o cotidiano, por ser ela mesma uma condição tão cotidiana: uma larga estrada de asfalto para transportar pessoas e produtos. Nesses anos, as paradas anônimas para comer e abastecer se tornaram postos com marca registrada, tipo Mc Donald’s e Mobil Oil – uma transformação aparentemente sancionada por algum departamento de estradas de rodagem. Da mesma maneira os suburbios exclusivos junto à rodoviária cresceram e se tornaram cada vez mais extravagantes, enquanto as fortunas rápidas feitas nos anos de 1980 adquiriam casas que eram amálgamas absurdos de imagens de aspiração social e dimensões bombásticas. Em nossas observações constantes acabamos por descobrir, que a paisagem banal, o combustível que alimentava nossas conversas (e posteriores aulas) sobre o cotidiano, se tornava cada dia menos anônima e certamente menos banal.

Percebemos que a substituição do comum pela marca não era uma transformação inocente do cotidiano, e sim a usurpação do cotidiano pela publicidade. Confundir a logomarca ubíqua com uma identidade genérica era tomar erroneamente um marketing de sucesso como cultura “popular”. Hoje, mesmo a idéia de cultura popular, guarda, na verdade, uma relação ambígua com o cotidiano. Muitas vezes, parece ser apenas a maneira como o cotidiano se afigura nos radares da alta cultura.

Evidentemente, todos os aspectos da realidade são mediados de alguma maneira. Mas o cotidiano ainda pode ser o lugar menos mediado pelas forças que procuram limitar ou absorver sua vitalidade. Essa é a promessa que ele faz.

[in: O campo ampliado da arquitetura, A.Krista Sykes (org.)]